SEÇÃO II – E TEMOS MUITO A APRENDER

Projeto ENTREGA POR SP leva sorrisos e calor humano a moradores de rua

A cidade de São Paulo tem 15.905 moradores em situação de rua, segundo último censo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), divulgado em 2015 pela PMSP. Invisíveis à sociedade. As pessoas que vivem nas ruas costumam ser lembradas apenas no inverno, quando ganham as capas de jornais com casos de mortes por hipotermia e doenças causadas pelo frio, motivando campanhas de arrecadação de agasalhos e cobertores. Só neste ano, cinco foram vítimas no mês de junho, quando as temperaturas baixaram bastante na capital paulista. Na contramão dessa tendência de assistência momentânea, o projeto Entrega por SP leva, além de itens de necessidade básica, sorrisos, carinho e calor humano para cada um dos moradores que cruzam o caminho dos voluntários, durante o ano todo.

A ação, que hoje conta com mais de 150 voluntários, dez coordenadores e doações de todos os cantos do país, começou exatamente no inverno. Lucas Caldeira, fundador do Entrega por SP, acordou com frio em uma noite de julho de 2013, quando pegou um cobertor para tentar se aquecer. Na manhã seguinte, questionado pela mãe, ele estranhou aquela sensação. “A janela estava fechada, a porta também, eu já tinha uma coberta. Na mesma manhã, eu abri o jornal e vi a notícia de mortes por conta das baixas temperaturas. Na hora eu pensei em conversar com os sobreviventes e minha mãe me incentivou com 30 cobertores. Nas redes sociais, eu falei para amigos que eu faria a ação e, em três dias, tínhamos mais de cem cobertores. Foram sete amigos comigo e tudo começou”, explica.

Hoje, a ação se reúne de uma a duas vezes por mês, sempre às terças-feiras, às 20h. O ponto de encontro é a Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Lá, centenas de pessoas que nunca se viram na vida trocam experiências, solidariedade e colocam a mão na massa para separar doações e kits (como um sanduíche, um pacote de bolacha, água, preservativos, sabonete, meias, pasta e escova de dentes). O BOL acompanhou uma noite ao lado dos voluntários em uma das nove rotas criadas pelo grupo. Foram cerca de sete horas – do início da organização até a entrega dos kits e conversa com moradores.

Somos todos iguais

“Boa noite, qual seu nome?”, diz uma das voluntárias a um morador. Segundo Luiz Felipe Fogaça, um dos coordenadores do projeto, tratar as pessoas pelo nome e respeitá-las sem fazer julgamentos faz do Entrega por SP uma ação diferente. “A ideia é promover diálogo com quem está na rua, uma convivência amigável. O ideal é conhecer a história da pessoa para quem você dá o kit”, afirma. Vivendo nas ruas, Fábio é pai de trigêmeas e fala orgulhoso das meninas, de 12 anos, que estão todas no colégio. “No fim de semana eu fui à festa junina delas. Uma já está até namorando, fiquei com ciúme”. Morador da zona norte da capital, pegou um tênis entre os itens oferecidos pelos voluntários, vestiu as meias e separou o lanche para comer mais tarde. Na avenida Cruzeiro do Sul havia grupos grandes – verdadeiras famílias construídas na rua – vivendo em comunidade. Casais com filhos, cachorro e muita história para contar. Rafael, de 34 anos, não desgruda da Neguinha, sua vira-lata e amiga. É só ouvir o assobio do dono que ela corre até ele. “Olha aqui, Neguinha! Ganhamos bolacha, mais tarde tem ‘lanchinho’ para nós”, diz o morador, que logo segue até a sua “maloca”, como eles dizem, e leva as doações para a mulher, Gabriela, de 29 anos. Grávidas, Ana Cláudia e Elizabete vão ter meninos em breve. Ana, aos oito meses de gestação, anda ansiosa com a chegada do primeiro filho. “Fiz todo o pré-natal, agora falta só quatro semanas para eu ver meu filhinho”, revela. Elizabete, que descobriu a gravidez recentemente, quase aos sete meses, também se mostra animada com a chegada do menino, independentemente das dificuldades da rua. “O importante é que ele vai estar comigo”, afirma. Aos 35 anos, Gilson, outro morador que cruzou o caminho dos voluntários, fica emocionado com tanta gente jovem ajudando, abraçando-o e ouvindo cada uma de suas histórias. Com os olhos marejados, ele conta sobre os bicos que faz e sobre o sonho de voltar para a Bahia, sua terra natal. Na hora de dizer tchau, ele se emociona ainda mais: “Obrigado. Eu não tenho como agradecer”.

Vidas modificadas – Um projeto como este, que sai às ruas para levar sorrisos, toca o coração não apenas de quem é ajudado, mas também de quem se mobilizou para que a ação saísse do papel. “O potencial do Entrega por SP, mais que mudar as noites das pessoas, modifica o olhar de cada um de nós com a rua. É uma corrente do bem”, afirma Marcela Branco, uma das coordenadoras do projeto.

O BOL ouviu histórias de quem participa, sacrifica horas de sono e se envolve com cada amigo novo que faz na rua. Um dos lemas que a ação carrega a cada terça-feira – debaixo de frio, calor, chuva ou tempo seco – vem de um poema de Bráulio Bessa:  “…basta tu compreender que, quando se ajuda alguém, o ajudado é você”. http://www.entregaporsp.com.br/  Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br

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