SEÇÃO I – O DIA DO TRABALHO E AS CARTAS DE APRESENTAÇÃO

informativo 134-1

“Ilustríssimo Senhor,

tendo suficientemente visto e considerado as provas de todos aqueles que se dizem mestres e inventores de instrumentos de guerra, e descobrindo que a invenção e o funcionamento dos supostos instrumentos não diferem, em nenhum aspecto daqueles que já estão em vosso uso, eu tentarei, sem prejuízo de qualquer outro, explicar-me a Vossa Excelência, mostrando-vos meus segredos e depois oferecendo-me, se for de vossa vontade, para trabalhar com resultados, em momentos convenientes, em todas aquelas coisas que estão em parte brevemente registradas abaixo. 

  • Tenho planos para pontes, muito leves e fortes e muito fáceis de carregar. Com elas o senhor poderá perseguir o inimigo e, às vezes, fugir dele, e outras, seguras e indestrutíveis – seja pelo fogo seja por batalhas – que podem ser facilmente erguidas e colocadas em posição. E há planos para queimar e destruir as do inimigo. Quando um lugar está cercado, eu sei como remover a água dos fossos e como destruir uma infinita quantidade de pontes, caminhos cobertos, escadas e outros instrumentos relacionados a tais expedições. 

    Se um lugar não pode ser destruído pelo método de bombardeio, seja pela altura de seus bancos, seja pela força de sua posição, eu tenho planos para destruir todos os fortes ou outros baluartes, ainda que sejam fundados na rocha.

    Também tenho planos para morteiros muito convenientes e fáceis de carregar, com os quais é possível lançar pedras como se fosse uma tempestade, e, com a fumaça, provocar no inimigo grande terror, perda e confusão. 

    E se porventura a batalha acontecer no mar, eu tenho planos para muitas máquinas, extremamente eficientes, tanto para ataque, quanto para a defesa, e navios que resistem ao fogo dos maiores canhões, pólvora e fumaça.

    Também tenho meios para chegar em um local determinado por meio de cavernas e passagens secretas e sinuosas, feitos sem nenhum barulho, ainda que seja necessário passar por baixo de fossos ou de um rio.

    Farei também carros cobertos, seguros e inexpugnáveis, que entrarão no território inimigo com a artilharia, e não existe nenhuma companhia de homens armados que possa detê-los. E atrás deles, a infantaria poderá seguir praticamente incólume e sem nenhum obstáculo. 

    Por isso, ainda, se houver necessidade, sei fazer canhões, morteiros e artilharia leve, de formas muito úteis e bonitas, diferentes daquelas usadas atualmente.

    Onde a operação de bombardeio falhar, planejarei catapultas, trabucos e outros equipamentos de grande eficácia e de uso geral. Em resumo, eu criarei vários, e infindáveis, meios de ataque e defesa para atender a diversas circunstâncias. 

    Em tempo de paz, acredito que posso garantir total satisfação na arquitetura e na construção de edificações privadas, e públicas, e na condução de água de um lugar para o outro.

    Além disso, posso esculpir em mármore, bronze ou argila, bem como reproduzir em pintura qualquer coisa que possa ser feita, tão bem como qualquer outro, seja ele quem for. Além do mais, o cavalo de bronze deve ser tomado na mão, o que investirá de glória imortal e honra eterna a feliz memória do Príncipe, seu pai, e da ilustre Casa de Sforza.

    E se qualquer coisa mencionada anteriormente parecer a qualquer pessoa impossível, ou impraticável, ofereço-me prontamente para testá-la em seu parque, ou qualquer lugar que agrade à Vossa Excelência, a quem eu me coloco à disposição em toda a humildade possível.”

Será que a pessoa que mandou essa carta seria contratada para uma vaga em sua empresa? Pois bem, a Família Sforza o contratou. Ele se chamava Leonardo di Ser Piero da Vinci. E, ao receber a carta acima, a família, representada pelo Príncipe Ludovico Sforza, então governante de Milão, o chamou. Procurava, na ocasião, engenheiros militares. O mestre Leonardo ainda não tinha pintado a obra que o imortalizou, depois, ou seja, a Mona Lisa.

Contratado Leonardo da Vinci, outra carta foi recebida, no RH. E o processo de seleção ainda está em curso. A vaga é de roteirista e a carta recebida dizia:

Prezado senhor:

Gosto de palavras. Gosto de palavras gordas, untuosas, como lodo, torpitude, glutinoso, bajulador. Gosto de palavras solenes, angulosas, decrépitas, como pudico, ranzinza, pecunioso, valetudinário. Gosto de palavras espúrias, enganosas, como mortiço, liquidar, tonsura, mundana. Gosto de suaves palavras com “v”, como Svengali, avesso, bravura, verve. Gosto de palavras crocantes, quebradiças, crepitantes, como estilha, croque, esbarrão, crosta. Gosto de palavras emburradas, carrancudas, amuadas, como furtivo, macambúzio, escabioso, sovina. Gosto de palavras chocantes, exclamativas, enfáticas, como astuto, estafante, requintado, horrendo. Gosto de palavras elegantes, rebuscadas, como estival, peregrinação, elísio, alcíone. Gosto de palavras vermiformes, contorcidas, farinhentas, como rastejar, choramingar, guinchar, gotejar. Gosto de palavras escorregadias, risonhas, como topete, borbulhão, arroto.
Gosto mais da palavra roteirista que da palavra redator, e por isso resolvi largar meu emprego numa agência de publicidade de Nova York e tentar a sorte em Hollywood, mas, antes de dar o grande salto, fui para a Europa, onde passei um ano estudando, contemplando e perambulando. Acabei de voltar e ainda gosto de palavras. Posso trocar algumas com o senhor?

Robert Pirosh
Madison Ave, 385
quarto 610
Nova York

Robert Pirosh, autor da carta acima, foi contratado como roteirista-assistente da MGM. Quinze anos depois ganhou um Oscar, de melhor roteiro, com o filme O Preço da Glória. Meses mais tarde, recebeu um Globo de Ouro.

Enfim, como é bom ser diferente! Ser criativo! Ser criador! Ter planos para pontes, para perseguir o inimigo ou, para, às vezes, fugir dele! Ter navios que resistem ao fogo dos maiores canhões! E gostar de palavras!

Gordas, solenes, suaves, crocantes, amuadas, enfáticas, farinhentas e risonhas!  

Fonte: Livro “Cartas Extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis” organizado por Shaun Usher

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